Banho de Chuva

Minha primeira crônica, escrita em 2009:

“Uma boa caminhada garante um coração e um pulmão mais sadio; maior resistência física. Ajuda no controle do stress e, melhor ainda, elimina gordurinhas. Com todos esses benefícios ocorrendo internamente no corpo, não poderia deixar de ocorrer a melhora da auto-estima e da disposição do dia-a-dia. Essa foi a motivação para me tirar cedo da cama em pleno dia dos professores. Uma folguinha no meio da semana. Troquei-me rapidamente, antes que a motivação suplantasse a preguiça. Trajada confortavelmente, munida de óculos escuros adicionados aos de graus e um “MP algum número”, resolvi que iria a pé para a pista de Cooper. Afinal, tinha o dia, que estava apenas começando, pela frente. Animada, escutando música e com a visão levemente escurecida pelos óculos comecei o que deveria ser um percurso de seis quilômetros. Ainda no primeiro, base do aquecimento, percebi que a manhã não pedia óculos suplementares, pois o sol ainda dormia, como boa parte da cidade. Guardado os óculos, o ouvido alertou o corpo para barulho ainda longe: um trovão. Mas o corpo estava começando animar-se para o exercício. Mais um e outro estrondo, daqueles ensurdecedores. Um amigo, que vinha em direção contrária, desiste da sua caminhada diária e resolve dar meia volta.  Desistiu? Vai fugir da chuva?  Não vou pagar pra ver – respondeu ele me cumprimentando com um aperto de mão. A chuva começava a cair finamente. Fomos caminhando até o estacionamento, onde estava o carro dele.  Você está de carro? Não.  Vem. Eu te levo. Assim você não se molha. Num primeiro momento pensei em aceitar a carona. Mas o corpo me pedia arriscar um banho de chuva. Resolvi ouvi-Ia. Agradeci a gentil oferta, me despedi, fiz o contorno e retomei a caminhada. Recoloquei os fones no ouvido. A chuva piorava. Certo receio me assombrou. Questão de segundos. Tanto tempo a chuva não lavava meu corpo. Fui caminhando. Com os pingos, que agora eram mais intensos, batendo em meu corpo. Um pingo. Um pensamento. Outro pingo, outro pensamento. E quando a chuva encharcava tudo, estava completamente absorta em meus pensamentos. Chuva torrencial. Caminhava de volta para casa. Caminhava pra dentro de mim. Os óculos (estes de graus) embaçados pela água me impediam de ver a paisagem, mas começava a me enxergar de verdade. As roupas foram, pouco a pouco, aderindo-se ao corpo. As angustias iam, aos poucos, vazando pelos poros. A chuva intensificava-se e eu alegrava-me. Estava sozinha na pista. De vez em quando uma buzina, talvez de surpresa, talvez por causa da roupa que colara no corpo e chamava atenção. A água molhava o corpo e eu me inundava da minha presença. Ouvia os trovões que agora gritavam “vivas” pelo meu reencontro. Assim ensopada e ensimesmada cheguei de volta em casa. Tomei um banho quente. Lavei o corpo, posto que a alma tinha sido banhada pela chuva. Preparei-me café com leite, enquanto saboreava-o dei-me conta de que a vida é leve como aquela fumaça que subia da xícara. O que me leva de volta às caminhadas. Hoje foram apenas quatro quilômetros. Mas tenho certeza que deixei um peso maior que ontem pra trás.”

Clau Assi, 15/10/2009

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3 responses

  1. Rancho das Crônicas! | Responder

    Lindo texto, parabéns Clau Assi

    1. Obrigada. Sinta-se convidado a vir sempre.

  2. Bela crônica, Clau. Muito bem escrita, ótima leitura.

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